Uso Medicinal e Terapêutico da Maconha

Diante da controvérsia em legalizar ou não o consumo da maconha, surge mais uma questão polêmica: o seu uso terapêutico e medicinal.

Não é de hoje que a Maconha tem sido usada em tratamentos medicinais. Grande parte dos povos orientais já conhecia as propriedades da Cannabis tanto no uso medicinal quanto terapêutico, em rituais religiosos, três milênios antes da Era Cristã. Seu uso já era recomendado no milenar Império Chinês, em 2700 a.C. Há registros de seu uso terapêutico em diversas outras civilizações da Ásia, do Oriente Médio e da África, como assírios, romenos antigos, dácios, entre outros. Mas o uso histórico mais famoso vem dos registros indianos, que tinham na maconha um medicamento valioso. E foi na Índia que o médico da Rainha Vitória da Inglaterra conheceu e passou a receitar a erva a seus pacientes contra insônia, catarro e asma, no final do séc. XIX, inclusive à sua ilustre paciente real.

Nos Estados Unidos, o uso da Maconha permeia a sua história desde a colonização. O cânhamo, fibra extraída da folha, foi fundamental para a fabricação têxtil e também de papel. Até hoje, o chamado “Triângulo da Esmeralda”, conjunto de pequenas cidades ao norte de San Francisco, tem no cultivo da maconha seu principal sustento, apesar da limitação quantitativa do seu cultivo.  60% dos moradores da região sobrevivem do cultivo da maconha para venda a finas terapêuticos. Da mesma forma acontece na Califórnia, primeiro Estado americano a legalizar o uso da maconha para fins medicinais após plebiscito em 1996. Depois dela, outros 15 Estados seguiram o exemplo. Em solo californiano, qualquer residente acima de 18 anos com prescrição médica pode comprar remédios à base da planta em farmácias especializadas. Atualmente, a pressão para legalização total da erva nestes dois locais é grande, tanto pela importância econômica local do seu cultivo e venda, quanto pela normalidade do seu consumo.

Em países como a Argentina, Itália, Canadá, Estados Unidos, Grã-Bretanha, Suíça, Holanda, Bélgica e Alemanha, a Cannabis já é legalizada para usos terapêuticos, entretanto, na maioria destes países este uso se restringe à utilização dos princípios ativos da Maconha para a fabricação de medicamentos, principalmente contra dor.

Existe hoje uma forte movimentação científica no sentido de legalizar a utilização da maconha no desenvolvimento e produção de medicamentos. Sua importância seria comparável ao ópio para a descoberta e fabricação da morfina – um dos medicamentos mais usados para sanar dores agudas atualmente. No Brasil, estes estudos foram iniciados na década de 60, na Faculdade Federal de Medicina de São Paulo, (Unifesp), sob a liderança do professor José Ribeiro do Vale, na Unifesp, hoje com focos em diversas partes do País. Os principais defensores da legalização da droga com objetivos medicinais se encontram hoje nos estados de São Paulo, Santa Catarina e Minas Gerais.

Diversos estudos científicos apresentados pelos profissionais de saúde ligados à ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria) apontam o uso da maconha como fundamental no tratamento de Aids (utilizado para aumentar o apetite dos pacientes), Câncer  (para alívio dos sintomas desencadeados pela quimioterapia, como náuseas e vômitos), Glaucoma (reduzindo a pressão intra-ocular) e Esclerose Múltipla (estimulando a mobilidade motora).

Além disso, já se sabe que o princípio ativo da Cannabis é muito eficaz no combate à dor. Medicamentos como o Sativex, produzido pela empresa farmacêutica Novartis e proibido no Brasil, estão sendo usados com sucesso como poderosos analgésicos. O médico Hercílio Pereira de Oliveira Júnior, psiquiatra do Programa Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas (Grea) da Universidade de São Paulo (USP) é um dos que defende a utilização medicinal da Cannabis. “As perspectivas científicas mostram que vale a pena aprofundar os estudos sobre a planta”, defende o psiquiatra.

A maioria dos médicos, entretanto, defende e apóia a utilização medicinal apenas do princípio ativo da maconha, desaconselhando o seu uso in natura, como cigarro. Segundo o médico Elisaldo Carlini, psicofarmacologista, professor da Faculdade Federal de Medicina de São Paulo, (Unifesp) e diretor do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid), o uso contra-indicado da maconha como psicotrópico  pode causar efeitos severos e nocivos, como taquicardia, secura na boca e vermelhidão nos olhos e em situações extremas, até desencadear transtornos psiquiátricos, como a esquizofrenia, além de causar dependência.

Já o psiquiatra Hercílio Pereira afirma que “o medicamento tem estudo clínico, existem proporções corretas das substâncias usadas, imprescindíveis ao seu funcionamento”, indicando que seu uso como psicotrópico continua sendo desaconselhável.

Se existem tantos benefícios, porque então tanta polêmica em torno deste tema? Segundo Carlini, deve-se ao conservadorismo geral da sociedade, à demonização da maconha e o temor de sua possível legalização. “Acham que liberar a maconha medicinal é o primeiro passo para o ‘liberou geral’. Por isso, querem manter proibido o uso terapêutico também, o que é um erro”, revela o doutor, que é hoje um dos principais estudioso acerca do uso medicinal da Cannabis.

Diante de tantos benefícios, poderia ser apontada a maconha, a “erva do diabo”, como salvação para tantos problemas medicinais ainda sem solução? Carlini diz que não. Seu objetivo é criar mais opções paliativas e tratamentos alternativos aos já existentes. “É fundamental que a medicina conte sempre com opções terapêuticas. Isso representa evolução. O objetivo é abrir o leque e saber que temos essa possibilidade”, defende Carlini. Não se pode criar tanta expectativa acerca de um único tratamento. A maconha não é a cura, é apenas mais um caminho a seguir e sua legalização deve ser pensada como forma de solucionar problemas, tomando-se as medidas necessárias a não gerar novos, como aumento do número de dependentes químicos. O próprio Carlini é contra a legalização da maconha para uso recreativo, bem como todas as outras drogas. Há que se encontrar um meio termo para atingir todas as necessidades sociais, sem que, com isso, sejam gerados novos conflitos.

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